quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Caminhos, caminhão: Misto de feira e Pilão de pau (José Cícero) - poemas


    
          Caminhos, caminhão: Misto da feira...

De terra era a estrada
que dava para à ribeira.
O caminhão à manivela.
O misto da feira
subia gemendo e devagar
o topo da serra.
Crato, Aurora e Missão Velha.
Ônibus dos feirantes,
trem dos retirantes
esquecidos pelos sertões adentro.
Misto da feira,
entupetado de mercadoria, gente e bicho.
Antigo Misto, velho caminhão,
cheiro forte de homem e gasolina.
Rota batida, sol à pino,
Café da linha,
que se estendia
das feiras do Crato
e de Juazeiro até Cajazeiras.

A distância era tremenda,
léguas tiranas,
poeira densa de encher a alma
dos viajantes.
Saudosas paradas.
Merenda: Café com broa,
distribuídas ao longo da estrada.
Jipe roncando, carro de boi invejando.
Rural e DKV atolados
na areia quente da seca.
Velha jardineira, de primeira classe,
rasgando o solo dos sertões
em dias de feira.
Cidadezinhas à espera,
velhos chapeados a postos,
provinciano dia-a-dia
daquela boa gente sertaneja.

De terra era a estrada,
rastros da borracha na areia,
pedras soltas, cascalhos do chão.
Chão batido, poeira, bodegas...
Caatinga pra todo lado,
solidão dos caminhos,
quebrada pelo misto da feira.
Motor endiabrado,
levando na boleia e na carroceria
gente e bicho,
bugigangas e outras mercadorias
à feira do Crato,
Aurora, Icó, Brejo e Porteiras.
Velho Misto da feira,
caminhante do oco do mundo,
aproximando a lonjura do Cariri
até à feira de Fortaleza.

                      José Cícero



          Pilão de pau

Velho pilão,
moinho antigo.
Arroz, paçoca e milho,
batido e amassado.
Sagrado alimento do Olimpo,
maná dos sertões abandonados,
enchendo de energia os buchos,
e, de calos, a palma das mãos dos ousados.

Velho pilão,
tronco roliço - puro miolo
de aroeira, angico e pau d’arco.
Inquebrantável madeiro.
Pau ferro cinturado e polido,
feito pelos carpinteiros dos matos
na base do facão e do machado.
Suor dos rostos e sangue dos dedos.

Símbolo de fartura e de tempero.
Eito do sertão e refrigério,
pão-nosso multiplicado,
combatendo a fome dos viventes.
Arma dos destemidos.
Lida eterna do sertão.

Velho Pilão.
Prometeu destemido.
Bolo e pão de milho.
Saudade, balseiro dos rios
e dos riachos secos.
Agrestes sentimentos.
Bichos dos terreiros,
pirão, angu, xerém de pinto,
pamonha, tabuleiro e mão de pilão,
arma de amazonas dos sertões
e de homens madrugadeiros.

Pilão de pau,
velho pilão de pau...


                José Cícero

Colômbia: do realismo mágico de García Márquez à cumbia de Carlos Vives (Cecília Rossé) - crônica



Amigo, se queres que eu te conte um pouco sobre a Colômbia e as surpreendentes descobertas que fiz nas terras de Gabriel García Márquez, vamos tomar um café.

E o da Colômbia é o melhor do mundo. Segundo a bela recepcionista que me atendeu (que aconchegante o hotel onde me hospedei!), um carismático brasileiro passava o dia inteiro degustando- o e dizendo: “Foi o melhor café que já tomei na minha vida!” A ponto de beber mais de 20 xícaras ao dia.
                        
Quando cheguei, pela primeira vez, na terra libertada por Simon Bolívar, a antiga República de Granada, senti o impacto de ver a cidade ampla, toda “peatonal”, com ruas e alamedas para se caminhar, andar de bicicleta e desfrutar a vida. Nem o vento frio, vindo das montanhas que rodeiam a cidade, tendo o “Cerro Monserrat” como ponto de visita obrigatória, impediu-me de caminhar e descobrir Bogotá, que tem como lema ser uma cidade humana.
                        
O fuso horário, inicialmente, deixa a gente meio tonta. Mas, depois que se toma um “jugo de mora”, as energias se renovam, e o dia fica mais cheio de graça e beleza. E quanta beleza e moças bonitas existem na capital da Colômbia: são “las reinas”, que desfilam “impecables” pelas “Carreras” de toda a cidade, bem vestidas e elegantes, com uma altivez e estilo, inconfundíveis e admiráveis. Parecem que estão sempre prontas para ganhar o concurso de Miss Universo.
                        
“Buenos días, princesa, a la orden.” Esse é o cumprimento mínimo com o qual somos recebidos nas tendas do Centro Histórico Candelária, seguidos dos mais largos sorrisos e carinhos, que me deu vontade de ficar por lá.
                        
Passar uma manhã visitando os museus é roteiro obrigatório, pois são muitos e de diversos tipos, um culto à arte, alguns com entradas gratuitas: Museo del Oro, Museo Botero, onde encontramos as maiores obras deste grande mestre colombiano, (não são gordinhos, são volumosos. Só uma questão de distorcer a perspectiva, diz o mestre Fernando Botero. Há o Museo de las Esmeraldas, Museo Quinta Bolívar, onde podemos conhecer mais intimamente essa figura tão importante, que deu a vida em prol da libertação da América Espanhola.
                        
E a narrativa me faz pedir outra xícara de café, de preferência acompanhado de saborosos doces e bolos, que se encontram nas cafeterias e bares de Bogotá. Sem esquecer as frutas que, de tão variadas, nem o colombiano mais sábio as conhece todas.
                        
Para visitar a Colômbia, qualquer pessoa deve ler, ao menos uma vez na vida, a obra de Gabriel García Márquez, inteirar-se do realismo mágico, rodeado de seres e sítios imaginários, mas que, de tão reais na narrativa de Gabo, faz-nos conviver com eles, participando da trama fantástica. São tantos Aurelianos Buendía e Úrsulas a se meterem numa história rebuscada e envolvente, que nos leva a sentir e sofrer os mesmos dramas e vitórias nas terras de Macondo. Ergo vivas nosso premio Nobel de Literatura! E vive mesmo, no Centro Cultural dedicado a ele, tão bem arquitetado por Rogelio Salmona, onde as sensações e a beleza do lugar nos emocionam a cada ambiente. Livros e mais livros eu trouxe na bolsa, na ânsia de sempre participar dos roteiros de Cem anos de Solidão e tantos outros.
                        
Quando entramos no Transmilenio, o transporte público mais eficiente da América Latina, em contato com o povo, seus costumes e tradições, sentimos que a Colômbia oferece muito mais do que dizem por ai.

Colombianos: quão gentis e elegantes! Nos dias em que passei por lá, estavam eles tão contentes, porque o cantor Carlos Vives havia ganhado o Grammy Latino.

Terminando o café, façamos um brinde à música e à arte, louvando a vida e a diversidade da Colômbia.

                                           Cecília Rossé 

Gargalhada ponto com (Magda da Lima) - crônica



A gringa entrou tímida. Enfeitou nome de gente, de bicho e de coisas. Já cantava a "Pequena Notável" luso-brasileira: "Dizem que voltei americanizada".

Hoje, os lusófonos finalmente adotaram-na. Ela ganhou ar brasileiro e ciberespaço. Como desabafo, ou deboche, a letra K é a queridinha de quem se joga na rede virtual, a fim de opinar, mesmo quando não há muito que escrever.

A letra K, por si mesma, apresenta força. Eu mesma, sem entrar em "acordo", utilizei-a em conversa com colegas de escola. Cheguei a expressar-me, nessa única letra, a minha opinião sobre assuntos complexos. Ao usá-la, extravasei-me a ironia e a alegria. Quando deixei de pronunciá-la por um tempo, houve até quem lhe sentisse a falta:

- Cadê aquela gargalhada gostosa? - perguntavam-me.

Bom mesmo é quando, após uma sequência bem longa de kás, ela venha acompanhada de um "ai, ai" - sinal de que a história foi boa ou houve a entrega de: "Já fiz isso na vida!".

Para você, que não se incomoda a minha maneira irreverente de ser, deixo-lhe o meu extenso: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!


                                                    Magda Lima

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Insiste em insistir (Dantas de Sousa) - REGÊNCIA VERBAL / debate político



                            INSISTIR (intransitivo)
                    INSISTIR em (transitivo indireto)


- Por que o nobre deputado Augusto está insistindo na mesma pergunta (objeto indireto)?

- Insisto. Insisto com convicção (adjunto adverbial de modo).

- Mas por que o nobre deputado Augusto insiste para eu lhe responder logo (oração adverbial de finalidade)?

- Eu só insisto quando alguém é insistente (oração adverbial temporal). Insiste em se manter irredutível (oração substantiva objetiva indireta), insistindo na aprovação de uma lei (objeto indireto) que, todos nós, insistimos em não aprová-la (oração substantiva objetiva indireta).

-  Mas Vossa Excelência deve se lembrar de que o senhor também insistiu para que todos nós votássemos a favor daquele seu projeto (oração adverbial de finalidade). Naquela ocasião, Vossa excelência, acordado com a esquerda, insistiu sobre a aprovação do aborto (adjunto adverbial de assunto).

- Naquele momento eu insistia porque uma parte da sociedade a reivindicava (oração adverbial causal).  Eu insistia em sua rápida aprovação (objeto indireto). E eu insistia com todos os da base governista (oração adverbial de companhia).

- Ah, agora entendo que Vossa Excelência insiste contra a aprovação do meu projeto (oração adverbial de oposição). Insiste, mesmo não tendo nenhum conhecimento dele (oração adverbial concessiva). Insiste como um cordeirinho (oração adverbial comparativa).


                                                Dantas de Sousa

A importância de ler narrativas (Dantas de Sousa) - ideia



Quando os pais são leitores da palavra escrita... Quando os professores são leitores da palavra escrita... Quando os colegas são leitores da palavra escrita... Quando os jovens veem, em seu meio social, leitores da palavra escrita... Qual a conclusão a que chegaremos nós?

De antemão, creio que, se alguém se dispuser ao exercício da leitura da palavra escrita, como os que necessitam dos exercícios para a saúde corporal, pouco a pouco, eles se apropriam da arte de mergulhar, com profundidade, no texto. Com certeza, nessas suas imersões textuais, irão se deparar com inúmeros acontecimentos, com milhares e milhares de ideias, com cardumes de mensagens, contendo sentimentos e paixões humanos.

Jovens que praticam o esporte da leitura da palavra escrita, quando se vão aos textos, sobretudo os textos narrativos de ficção, chamados de narrativas, apresentam melhor   eficiência intelectual para entenderem a condição humana. Isso porque as histórias, ou as narrativas, lhes mobilizam as emoções para lhes fazerem pensar com objetividade.

Numa narrativa, há inúmeros personagens agindo sozinhos ou entre outros, e todos eles manifestam aos leitores da palavra escrita as suas vidas de “homo fictus”. Pode-se até afirmar, com ênfase, que as suas características peculiares, como virtudes e vícios, costumes e hábitos, denotam mais visão nítida para o leitor, pelo fato de que seus criadores, “homo sapiens”, ou escritores, apresentarem maior liberdade no ato de os descreverem e de lhes narrarem as ações.   

Ademais, numa narrativa, há a síntese entre a expressão espontânea (informal, coloquial, relacionada a regiões e a grupos sociais) e a linguagem mais elaborada (formal, normatizada, de padrão linguístico de abrangência social e universal). Como também, destaca-se a expressividade da linguagem conotativa, figurada, ou da variedade de discursos e de linguajares.

Diante de todas essas considerações anteriores, a conclusão a que se chega aqui se evidencia na urgente necessidade do cidadão lusofônico-brasileiro se motivar ainda mais para a constante leitura da palavra escrita, notadamente de narrativas (como romances, contos, crônicas, fábulas, etc.). Claro que, se iniciado e estimulado já no período infantil, tornar-se-á, sem dúvida, excelente recurso pedagógico de apoio para a formação intelectual, para a construção da personalidade, para o aprimoramento da educação social.  Afinal, o português, que é uma das línguas mais faladas do mundo, hoje se apresenta como veículo de uma importante literatura de ficção.  E, atualmente, muitos são os atrativos para a leitura de textos literários em português, como o fascinante papel de vidro do computador.

                                           Dantas de Sousa   

Literatura folclórica: PIADAS (14)



Doutor Antônio João, após insistente pedido, em particular, da esposa e da filha mais velha de Chico Belém, recomendou:-lhe:

- Seu Chico Belém, eu vejo que é a bebida que está lhe causando essas tantas dores, que o senhor está sofrendo. Pois, a partir de hoje, vamos fazer um teste. Eu aconselho que o senhor passe, pelo menos três meses, sem tocar em bebida com álcool. E depois o senhor me venha dizer qual foi o resultado.

Seu Chico Tomás foi para casa triste e mudo. Mas seguiu à risca o que o médico lhe recomendara. Ao completar o prazo dado, voltou, acompanhado da esposa e da filha. E, quando o médico lhe pediu que ele dissesse como se achava, ele lhe falou prontamente:

- Dotô Antõin João, a dor que eu tou sentindo é de matar qualquer um.

- Pois me diga, seu Chico Belém. Me diga onde é?

- Pois bem, dotô Antõin João. Pra ser sincero pro senhor, a dor que eu sentia desapareceu bem mais de pouco. Mas a dor da saudade da bichinha num se desparece não, só faz é aumentar mais. É igual a dor de chifre, que só sabe quem já passou, como o senhor.


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A polícia recebeu, por telefone, a denúncia de que um doido, desconhecido de todos, estava sentado no telhado de uma casa, há mais de uma hora. E que ninguém conseguia que ele descesse de lá. Deram-lhe o endereço da casa. Dali a pouco, a polícia chegou: 

- Eu posso saber, disse o sargento, o que o cidadão está fazendo aí em cima?

- Eu só
tou é olhando o tempo. -  respondeu ele.

O sargento ficou nervoso e ordenou-lhe:

- Pois desça logo daí. E, se você não descer, nós vamos descer você à força.

Após uns quinze minutos de espera, o doido, finalmente, resolveu descer, bem devagar. Quando, enfim, ele chegou no chão, o sargento o abordou:

- Mas quem é você?

E o doido, sem nenhuma cerimônia, respondeu-lhe:

-
Peraí, agora deu. Eu pensei que o doido era só eu. Pois eu sou aquele mesmo que tava lá em cima.


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No dia do casamento de um amigo nosso, tido como bem de vida, endinheirado, um dos convidados, comerciante próspero no ramo de ouro, bebeu todas e começou a falar eguagem. Uns, também alterados pela bebida, incentivaram-no. E o comerciante, então falando alto, abriu a boca:

- Um amigo meu, que trabalha com ouro, viajando pelo Brasil, todas as vezes que ele vem puraqui, só se hospeda no hotel de dona Francisquinha, aquele ali atrás da prefeitura. Um dia, ele me disse, saído da boca dele mesmo, que todas as vezes que tá puraqui ele tora umas mulheres casadas, lá mesmo no hotel, e tudo ajeitado por dona Francisquinha.  

Ouvindo essa indiscrição, alguns senhores, pelos olhares deles, ficaram assustados com o fato. Mas os bêbados da roda da conversa começaram a levar o fato com gozação. Diante disso, umas distintas senhoras, como protesto, levantaram-se das mesas e foram em direção de um outro lugar. E o que ninguém esperava ocorreu: não teve o que fazer um dos bêbados gaiatos e, com atrevimento, gritou para as senhoras:

- As madame num precisa ir pra longe não. O Zé Carvalho num vai dizer o nome de quem vai lá não.

Teve de ser encerrada a festa do casamento depois dessa, sobretudo depois da chegada da polícia.


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Zé Pedro dirigia sua camioneta na BR-116, indo para a sua fazenda. De repente, começou a avistar um carro de passeio que vinha lhe dando sinal de luz com insistência. Por coincidência, era um velho amigo seu que, já foi avisando a ele, de modo assustado:

-  A polícia rodoviária dali do posto pararam uma van que vinha correndo tanto e que não respeitou o radar. Só deu pra eles, pois está uma grande blitz, atrás de pegar uma quadrilha perigosa, que andam assaltando agências de banco. Mas, quando pararam a van, descobriram que iam  dentro dela um bocado de políticos, e todos, até o motorista, embriagados.

- E você chegou a ver quem eram os políticos? - perguntou curioso Zé Pedro.

- Eu mesmo num sei quem eram eles não. Mas, quando você chegar lá, acho que você ainda vai pegar eles por  lá. Eu só sei que o guarda que me parou, antes de me mandar seguir viagem, só me deu um toque que eram uns prefeitos que tinham ido até Brasília, para uma reunião que o Lula tinha chamado às pressas.

Na despedida, Zé Pedro, sorrindo, criticou:

- Pra nós, Onofre, essa corja toda frequenta a mesma festa. Uns de paletó, e outros ainda sem paletó. 


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Um estrangeiro passeava tranquilamente numa cidade do interior do Brasil quando, de repente, se deparou com um senhor de cabelo ficando grisalho e de canivete em punho, o qual lhe disse em voz baixa para não chamar a atenção:

- Num se mexa e nem fale nada. É um assalto.

O estrangeiro ficou parado e em silêncio, olhando somente para o tal senhor nervoso e com medo de alguém presenciar o seu malfeito. Como o estrangeiro não se mexia, ele o advertiu:

- Mim dê logo a carteira de dinheiro aí.

- Como? - perguntou-lhe de modo calmo o estrangeiro. - Carteira, que vem a ser?

- Num tire sarro deu não. Eu tô pidindo pra tu a bolsa. A bolsa do dinhêro.

O estrangeiro botou a mão no bolso e, calmo, retirou a bolsa de couro, inchada. Em seguida, esvaziou-a e entregou-a ao assaltante.

- Epa, epa, disse o senhor, tu tá querendo tirá onda cum minha cara, é? Eu num pidi essa bolsa aqui não. Eu pidi pra tu foi uma carteira de dinhêro cum o dinhêro todim dento dela.

- Mas, mas, tu... - retrucou-lhe o europeu, procurando entendê-lo. - Tu me disseste que estavas a praticar um assalto e que me querias a bolsa. Agora, tu estás a praticar outro assalto: o meu dinheiro. 

Por coincidência, um senhor barrigudo, que ia passando, desconfiou daquilo e se aproximou de revólver em punho, dizendo-se que era soldado da polícia militar, e que estava à paisana. Aquilo assustou o assaltante, que saiu dali parecendo um foguete, jogando a bolsa no meio da rua. Então, o estrangeiro, enquanto colocava de volta os objetos na bolsa e, ao mesmo tempo, agradecia ao soldado, fez sua crítica:


- Esta não é a primeira vez que ocorre comigo casos assim, desde que cheguei ao seu país. Parece que o brasileiro não sabe se expressar em sua própria língua. Até para assaltar alguém. E ainda vivem a criar piadas com nós portugueses.     

Literatura folclórica: PIADAS (13)



Um bêbado, deitado no banco da praça, foi acordado por um pastor, de bíblia  à mão. O evangélico nem esperou o bêbado se sentar no banco, e já foi direto lhe dando conselho:

- O senhor sabia que o álcool está matando muita gente?
 
ligado, ligado. Mas eu num bebo álcool não, meu sinhô.
 
-  Não...? - admirou-se o pastor.  - Mas, então, eu estou vendo que o senhor está bem embriagado, com um aspecto de uma pessoa bastante viciada no uso de álcool... Como ainda me diz que não bebe álcool?

- Mas eu num bebo álcool não, meu sinhô. Eu num sou doido não. Se eu bebesse álcool, sinhô, eu já tava era morto. Eu só bebo é a cachaça.

 
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Dois viciados em crack conversavam, quando um perguntou:

- Você viu que coisa mais legal, meu? Fiz uma viagem e tanta, meu. E tu?...

- Dessa vez, fiz não, meu, ligado? Deu foi uma lombra, dum baixo astral, ligado?

- Pois eu já sei o que foi que deu.

- Comé que tu sabe, meu? Nóis num fumamo da mesma pedra que nóis cumpramo?

- Fumamo, ligado? Só que tu viajou prum outo caminho, ligado?  


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Quatro senhores aguardavam o ônibus no ponto, e todos eles totalmente embriagados. Ao avistarem o ônibus se aproximando, todos quatro já ficaram muitos agitados. E quando o motorista abriu a porta, três deles, mesmo cambaleando, subiram apressados os dois batentes.  Mas só que o quarto não entrou. Por isso, o motorista levantou a voz para ele:

- Comé? Comé? Os seus amigos  já entrou, e você?... Vamo logo, queutou é atrasado.

Foi aí que o bêbado lhe respondeu na bucha:

- Pois pode seguir seu caminho. Quem ia era eu, mas só que eles, que vinheram mim trazer até aqui, resolveu ir no meu lugar.


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Duas e meia da manhã. De repente, o dono da casa escuta a campainha tocar. Levanta-se sonolento e chateado. Ao perguntar quem era, ouve a voz de uma pessoa embriagada:

- Compadre João, compadre João, sou eu, seu compadre, doutor Joaquim Soares. Meu carro parou aqui no meio da sua rua e não está andando mais de jeito nenhum. Foi a bateria.

Seu João abriu a porta e viu o compadre  aflito. Mesmo de pijamas, resolveu, então, ajudá-lo a empurrar o carro. E o pior, estava começando a neblinar forte. Logo, o primeiro pensamento que veio à cabeça de seu João foi se lembrar que o compadre morava há uns seis a sete quarteirões dali. Mas, em todo caso, decidiu empurrar o veículo, porque tinha a certeza de que ele pegaria logo, já que estava numa descida. Só que o carro não pegou antes da segunda esquina. E já quase todo molhado, seu João resolveu desistir.

- Compadre, esse carro num vai pegar não. - alertou-lhe seu João. - O melhor é encostar ele por aqui e deixar pra amanhã chamar um mecânico.

Sem sair de dentro do carro, doutor Joaquim Soares botou a cabeça para fora da janela e, sério, repreendeu seu João:

- Que é isso, compadre. Não me faça uma desfeita dessa não. Já que nós estamos no embalo, vamos botar meu carro até lá na garagem de lá de minha casa. Vamos que vamos. Empurre, empurre ele, antes que a chuva engrosse mais.


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Um aluno, do tipo malcriado e desbocado, avistou uma barata debaixo da mesa da professora. Correu depressa em direção dela e, com um dos seus tênis, tentou matá-la. Mas, como não conseguiu, gritou alto:

- Eu errei, puta que pariu.

A professora, prontamente, repreendeu-o, dizendo-lhe que aquilo não era de boa educação para se expressar em sala de aula. Mas o aluno nem se importou e revidou a professora:  


- Eu disse, professora, foi pra barata. Se fosse pra senhora, eu dizia: Puta que pariu, eu errei.