quarta-feira, 23 de julho de 2014

POEMAS (Edna Ribeiro e Raquel Alves)


            Desencontro

 Esperei a chuva
 O sol brilhou
 Esperei a lua
 O céu nublou
 Esperei você
 Você faltou
 E eu voltei
 Sem crença
 Tão só

         Edna Ribeiro


                Eu te desafio

É tão difícil aprender a amar.
E, quando enfim conseguimos,
eis que a dor da partida
vem nos devorar.
Esses pensamentos, como verme,
em minha cabeça brotam sem cessar.

É tão fácil aprender a sofrer.
Quando perdemos nosso rumo,
eis que a morte chega calmamente.
Ela dorme em seu leito sem você perceber.
Esses pensamentos deprimentes,
em minha cabeça, brotam sem cessar.

Morte, eu te desafio.
Um ar gélido é tudo que recebo
quando digo teu nome?
Morte, eu te desafio.
Eu não compreendo direito
o teu joguinho sujo.

É tão difícil trapacear agora.
Tu estás em alerta a tudo.
Eis que tu demoras a enxergar uma luz.
Esses pensamentos me conduzem
a esperança que brota em mim,
sem cessar...

Morte, tu não és a mais forte.
A dor que levo em meu peito
é poderosa demais e vai te destruir.
Morte, tu não és a mais forte.
Sábio é aquele que, em sua lágrima,
alimenta a fé de um dia te destruir.

                    Raquel Alves

POEMAS (Eneilton Moreira Duarte e José Esmeraldo da Silva)


             A rosa imponente

Uma rosa risonha, redolente,
no jardim, tão faceira, se orgulhava.
Pois qualquer beija-flor, ali presente,
para a rosa imponente se curvava.

No jardim onde moro, há tantas flores:
margarida, anis, cravo, jasmim...
Mas aqui, quando pousam beija-flores,
os olhares se curvam para mim.

Mas um cravo, fitando a glamourosa,
redarguiu-lhe, de forma sinuosa:
Tu, de fato, possuis bela feição.

Mas, se eles te fitam encurvados,
não estão a teus dotes condenados:
é que foste plantada rente ao chão.
 


            Eneilton Moreira Duarte.


                  O pedido

Oh, meu bom Jesus Cristo, neste mundo
venho curtindo imenso sofrimento.
Tenho crise de dor que me confundo,
suporto este sofrer todo momento.

E só Jesus, com seu poder profundo,
pode extinguir-me, pois, este tormento.
Com simples gesto, dentro de um segundo,
converte em gozo o meu viver cruento.

Confio, ó meu bom Deus, de ser ouvido.
Sem mesmo eu ter nenhum merecimento,
sei que o Senhor defere o meu pedido.

Extermine, de mim, o sofrimento,
ó meu bondoso redentor querido,
pois é muito cruel o meu tormento.

               José Esmeraldo da Silva


terça-feira, 22 de julho de 2014

FERIADO NO MÊS DE JULHO?... (Dantas de Sousa) - crônica para o Dia do Município de JN

                        
                        
                    Feriado no mês de julho?...
                              
Sabemos nós que a busca do conhecimento é importantíssima para nossas vidas. Tão necessária e indispensável como a água potável para o ser humano é. E corremos para saber o que se passa tanto perto como longe de nós. Vemos ou assistimos, lemos ou ouvimos, e o bom é ficarmos cada vez mais informados. E a informação vem até nós como o vento:

- Mas é bom a gente, dotô, por dentro de tudo um pouco e por dentro um pouco de tudo.

E foi dessa maneira que terminou nosso papo. Mas para o leitor, que lê este meu texto, preciso de lhe informar o porquê do autor dessa filosofia se expressar assim. Pois lá vai, meu querido leitor, caso seja paciente com a palavra escrita.

Andávamos eu e Mirela, minha cachorrinha, nesta manhã de 22 de Julho - Dia do aniversário do Município de Juazeiro do Norte (103 anos). Lá para as tantas, Mirela parou para descansar. O destino me colocou diante de um senhor, sem ser idoso, saudável e que se achava sentado debaixo de uma arvorezinha, ajeitando as unhas com um cortador de unhas. Depois de ele ter feito o seu agrado a Mirela, falei-lhe que o dia era feriado em Juazeiro do Norte.

- Feriado? Eu num tou sabendo disso não. - rebateu de pronto o senhor, sem parar de mexer na unha.  - Nós tamo é no mês de julho, dotô, e eu nunca, mais nunca mesmo até hoje, vi dizer que tinha aqui, no Juazeiro, esse feriado, que o senhor mim dizendo agora.

- Hoje é o Dia do Município. O Juazeiro está completando hoje 103 anos. É por isso que hoje é feriado.

- Lá vai, lá vai. Eu nasci aqui, eu já moro vinte ano nessa casinha aqui de porta e janela, no tempo deu menino até rapaz solteiro eu estudei muito nas escola puraqui, eu já trabalhei muito puraqui e viajando por longe daqui... Pois bem, eu nunca vi falar desse feriado, que o doutor me falando agora, no mês de julho, não. Avalie, dotô, se eu fosse um de seguir os feriado que dizem que têm puraí, os meus num tinha o que comer não, dotô. O senhor já viu os animais bruto ter feriado?

Gostei muito de ouvir aquele senhor falador. Ele ainda me contou, entre outros assuntos (já que só ele quem falara), que seu pai e sua mãe nunca cumpriram esses negócios de feriado. Os dois nunca deixaram de estar no batente de segunda a segunda. Até na sexta-feira da morte do Senhor eles trabalhavam de suor pingar. E morreram os dois velho encriquilhado em cima do trabalho, sem largar ele um só instante. E terminou de me falar se usando daquela frase do início desta crônica: “Mas é bom a gente, dotô, tá por dentro de tudo um pouco e por dentro um pouco de tudo”.

E já quando eu e Mirela íamos adiante, o senhor gritou lá da árvore:

- O saber, dotô, é como beber água. Mas até água demais a gente se empazina também.

                                 Dantas de Sousa

segunda-feira, 21 de julho de 2014

JUAZEIRO CENTRO DE ROMARIA (Dantas de Sousa) - crônica


                  Juazeiro centro de romaria

É comum se ouvir em Juazeiro do Norte esta citação do padre Cícero: “Depois da minha morte é que Juazeiro irá crescer”. O padre, ao se referir assim, já vislumbrava aos juazeirenses que esse crescimento se daria a partir da Vocação do Município: “Esta cidade (Juazeiro) é um centro de romaria e devoção”. E ainda o sacerdote assegurou com toda a convicção de um servo de Deus e cidadão consciente da sua missão, para a qual foi designado: “Não tem quem acabe com a romaria em Juazeiro. Foi um chamado da Mãe de Deus.”.
       
Não se pode negar que, após a morte do padre Cícero, a cidade de Juazeiro do Norte cresceu e continua crescendo. Muitos se tornaram moradores, muitos se estabeleceram com seus negócios. E muitos continuam a vir para cá. Entretanto, Juazeiro, talvez por “ambições e elementos corrosivos”, tanto de governantes como da própria população, deixou de envidar todos os esforços para seguir a sua Vocação Municipal, enveredando-se por projetos cíclicos, ou de conveniência.
       
Lembremo-nos, pois, da febre de ourivesarias, de lojas e fabriquetas de confecções, de lojas e fabriquetas de sandálias, de artesanatos, de parques industriais, de parque tecnológico, de impressão de jornais, de gráficas de cordel, de bancas de camelôs, espalhadas desorganizadamente pelo comércio central ou nas portas de residências...

Parece ser mania, ou desorganização, dos habitantes de Juazeiro do Norte: quando um instala, ou inaugura, ou abre um negócio, é logo imitado por uma maioria, sem haver o menor planejamento sócio-municipal. Para os menos letrados, caracterizam logo o Juazeiro como cidade de invejosos.   

Juazeiro do Norte - protótipo da burguesia clássica, ou seja, lugar em que se identificam marcas fortes de individualismo, de subjetivismo, de sentimentalismo, de religiosismo exarcebado, de idealização do herói, de ufanismo e de idealismo - este Município ainda não despertou para o fato de que está necessitando mais que urgente de uma forte injeção de Realismo Cultural, a fim de tornar saudável o aspecto municipal do ético-político, do sócio-educacional, do administrativo-governamental, etc..

Muitos municípios brasileiros se tornaram progressistas e com uma boa qualidade de vida de sua população devido à conscientização básica de sua Vocação Municipal.  Em face disso, alertamos que, enquanto a população de Juazeiro do Norte centenário ficar olhando seu Município com olhar romântico de ufanismo, de um crescimento que foge à realidade, irá sutilmente caminhando para uma involução e uma desnutrição sócio-econômico-cultural. Lembremo-nos, pois, das palavras proféticas do padre Cícero ao determinar a Vocação do Juazeiro do Norte: “Esta cidade é um centro de romaria e devoção”. Não deixemos as “ambições e os elementos corrosivos”, que movem sobretudo os que governam o nosso município, procurar destruir esta bela obra de Deus, Juazeiro do Norte, a predestinada a ser um dos centros de romaria e devoção católica.

                                Dantas de Sousa   

Juazeiro do Norte, 22 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

Literatura folclórica: UMA DAS DE PEDRO MALAS-ARTES - conto


                 Uma das de Pedro Malas-Artes

Um dia, Pedro Malas-Artes foi ter com o rei e lhe pediu três botijas de azeite, prometendo-lhe levar em troca três mulatas moças e bonitas. O rei aceitou o negócio. Pedro saiu e foi ter à casa de uma velha, ali pela noitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe botasse as botijas no poleiro das galinhas. A velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro Malas-Artes levantou-se, foi de pontinha de pé ao poleiro, quebrou as botijas, derramou o azeite, lambuzando as galinhas. De manhã muito cedo, Malas-Artes acordou a velha, e pediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi buscá-las, e, achando-as quebradas, disse: “Pedro, as galinhas quebraram as botijas e derramaram o azeite”. - “Não quero saber disso, disse Pedro; quero meu azeite, senão quero três galinhas.” A velha ficou com medo, deu-lhe as três galinhas. Malas-Artes partiu e foi à noite à casa de outra velha; pediu rancho e que agasalhasse aquelas três galinhas entre os perus. A velha, como tola, consentiu. Alta noite, Pedro se levantou, foi ao quintal, matou as três galinhas, besuntando de sangue os perus. No dia seguinte, bem cedo, acordou a velha, pedindo as suas galinhas, porque queria seguir viagem. A velha foi buscá-las e encontrou o destroço; voltou aflita, contando a Malas-Artes. Ele fez um grande barulho até levar seis perus em troca das galinhas. Na noite seguinte, foi ter à casa de um homem que tinha um chiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a noite em sua casa e que lhe agasalhasse aqueles perus lá no chiqueiro das ovelhas, porque bicho com bicho se acomodavam bem. O homem assim fez. Tarde da noite, Pedro foi ao lugar onde estavam os perus, e matou-os a todos, labreando de sangue as ovelhas. Pela manhã levantou-se bem cedo e pediu ao dono da casa seus perus. O homem, indo-os buscar, achou-os mortos, e voltou muito aflito, dizendo: “Pedro, não sabe? As ovelhas mataram os seus perus.” Ouvindo isto, Malas-Artes fez um grande espalhafato, gritando que o homem tinha morto os perus do rei e recebeu seis ovelhas pelos perus. Largou-se, indo dormir na casa de um homem que tinha um curral de bois. Aí ele fez as mesmas artimanhas, até pegar seis ovelhas pelos perus. Largou-se, indo dormir na casa de um homem que tinha um curral de bois. Aí ele fez as mesmas artimanhas, até pegar seis bois pelas ovelhas. Mais adiante, ele encontrou uns vendilhões de ouro e trocou os bois por ouro. Mais adiante encontrou uns homens que iam carregando uma rede com um defunto. Pedro perguntou quem era, disseram-lhe que era uma moça. Ele pediu para ir enterrá-la e eles deram. Logo que os homens se ausentaram, ele tirou a moça da rede, encheu-a de bastante ouro e enfeites, e foi ter com ela nas costas à casa de um homem rico que havia lá perto. Pediu rancho, disse às filhas do tal homem que aquela era a filha do rei que estava doente, e ele andava passeando com ela, e pediu que a fossem deitar. Foram levar a moça para uma camarinha, indo Malas-Artes com ela, dizendo que só com ele, ela se acomodava. Deitou a moça defunta na cama e retirou-se, dizendo às donas da casa: “Ela custa muito a dormir, ainda chora como se fosse uma criança; quando chorar, metam-lhe a correia.” Alta noite, Pedro foi e se escondeu debaixo da cama onde estava a morta e pôs-se a chorar como menino. As moças da casa, supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito até ela se calar, que foi quando Pedro se calou. Depois ele escapuliu e foi para seu quarto. De manhã ele pediu a filha do rei, e nada de a poderem acordar. Afinal conheceram que estava morta, e vieram dar parte a Malas-Artes. Ele pôs as mãos na cabeça, dizendo: “Estou perdido; vou para a forca; me mataram a filha do rei!...” Os donos da casa ficaram muito aflitos, e começaram a oferecer coisas pela moça, e Pedro sem querer aceitar nada, até que ele mesmo exigiu três mulatas das mais moças e bonitas. O homem rico as deu, e Pedro disse que dava uma desculpa ao rei sobre a morte de sua filha, e lhe dava de presente as três mulatas, para o rei não se agastar muito. Malas-Artes largou-se e foi logo para o palácio, onde entregou ao rei as três mulatas com este dito: “Eu não disse a vossa majestade que lhe dava três mulatas pelas três botijas de azeite? Aí estão elas.” O rei ficou muito admirado.
        
         Entrou por uma porta
        Saiu por outra;
        Manda o rei, meu senhor,
        Que me conte outra.   

A OUTRA EMANCIPAÇÃO (Dantas de Sousa) - crônica 7 - do centenário de Juazeiro do Norte


                                      A outra emancipação              

Ao passear com minha esposa, à noite, na Praça Padre Cícero, encontramos com o Cartaxo, que nos apresentou o Júlio Chagas Oliveira, um octogenário recém-chegado de São Paulo. Segundo meu amigo, ele estava a conversar com o visitante após conhecê-lo há instantes atrás, ali mesmo.

Sentamo-nos todos na bancada de madeira, em frente à estátua de bronze do padre Cícero. Antes de alguém falar, o ancião, jogando os dois braços para trás e por sobre a grade do banco, estufou o peito para exclamar:

- Aqui ainda é a Praça da Liberdade.

Uma vez que eu e minha esposa estávamos residindo em Juazeiro do Norte há um ano, até achamos estranho o que o senhor Júlio nos declarara.

- Eu, quando saí daqui, continuou a se explicar o ancião, era ainda moleque. Minha família foi morar em São Paulo. E bem me lembro que, naquele tempo, aqui muitos ainda chamavam de Praça da Liberdade, porque diziam que, aqui neste lugar, foi palco da emancipação política do nosso povo.

Também surpreso, Cartaxo procurou se adiantar que a praça, desde que chegara à cidade, com a família, na década de sessenta, para trabalhar na agência do Banco do Brasil, ela possuía outro nome: Praça Almirante Alexandrino. E foi além na sua explicação: alguém lhe havia contado que o tal almirante se fez presente na inauguração da estátua de bronze do padre Cícero, situada no meio da praça. A autoridade da Marinha brasileira viera ao Juazeiro do Norte porque era amigo de doutor Floro Bartolomeu. Só que Cartaxo não notava que, enquanto se ia a explanar o que ouvira dum amigo, a mão do senhor Júlio se achava espalmada a lhe pedir uma pausa no assunto. Até que, devido a um sinal da esposa, o aposentado do Banco do Brasil se calou. Ficou a rodar os dedos um no outro, à espera do ancião falar alguma coisa.

- Eu sabia, meu caro amigo, reafirmou-nos o senhor Júlio, com a voz lenta de idoso, que esta praça possuiu também esse tal nome. Mas, para mim, a Praça da Liberdade nunca deixou de ter esta sua denominação. E com muita justiça a nossa gente percebeu que Praça da Liberdade e Praça Padre Cícero são sinônimos. Ou melhor, são designações equivalentes.   

Na verdade, pelos nossos olhares de um para o outro, nós três, naquele momento, não entendemos nada, nada, do que aquele octogenário nos referia. A nossa atitude foi nos aquietar para ouvi-lo, mostrando-nos conhecimento sobre a história de Juazeiro do Norte. Foi a partir da maneira dele narrar o fato que dera origem ao nome da praça - Liberdade - que me abriu a curiosidade para ler, mais tarde, como se ocorrera a Emancipação Política do município de Juazeiro do Norte, em 1911. E, diante da minha interpelação ao senhor Júlio, a desejar saber qual livro bom de se ler a respeito desse tal assunto, ele se pronunciou de um modo sério e com um pouco de zanga:

- Ora essa, meu amigo. Você já deveria ter sabido. Eu lhe afirmo: pelo jeito, se o povo daqui não tiver cuidado, vai perder o fio da história desta cidade. Eu, que não moro aqui, mas ainda leio a história do meu Juazeiro. E um bom livro para se ler é Milagre em Joaseiro, de um escritor americano, chamado Ralph della Cava.           

- Mas nem eu, que já moro aqui há anos, desculpou-se Cartaxo, nunca tinha ouvido falar desse livro.

- Pois é, pois é assim mesmo. - sussurrou o ancião, balançando a cabeça, enquanto olhava para os mosaicos da praça. Dali a pouco, encarando-nos, levantou a voz: - O povo desta cidade precisa conhecer e estudar a história fascinante deste Município que está completando, neste ano, os seus cem anos. Pois aqui, acredite quem quiser, aqui tem um mistério - e que mistério! - é o fenômeno que aconteceu no século XIX.

Essa história de fenômeno ocorrido aqui me deixou mais surpreso ainda, como também a minha esposa. Cartaxo, por sua vez, mostrou-se ter ouvido falar desse tal acontecimento. E logo arranhou conhecimento a respeito de que aqui, no Juazeiro do Norte, a hóstia virou sangue quando o padre Cícero foi dar a comunhão a uma beata.         

- Mas isso que aconteceu aqui, concluiu Cartaxo, não está bem explicado até hoje. E muitas pessoas daqui nem dá tanta importância a isso. Os romeiros vêm é para visitar o padre Cícero, rezar aqui, visitar a cidade e fazer compras.    

Diante dessa observação do Cartaxo, o senhor Júlio não falou mais nada e dirigiu seu olhar para a estátua do padre Cícero, no meio da praça. Lembro-me que ele deu uns dois suspiros longos e continuou em sua contemplação. Em respeito ao octogenário, também continuamos no silêncio. E somente ao final do toque do relógio da coluna da Hora, avisando-nos vinte horas, o ancião juazeirense voltou a falar de voz mansa e firme:   

- Meus amigos, vocês parecem que não sabem o quanto o padre Cícero sofreu em vida por causa daquele acontecimento sobrenatural de 1889. Para a cidade, no entanto, aquele fato fenomenal foi como dinheiro achado por alguém num dia de muita aflição financeira. Melhor dizendo: as transformações das hóstias em sangue, para o padre, lhe trouxe sofrimento, mas para o seu Juazeiro, crescimento.
          
Naquele instante, achei que o ancião estava a delirar nas palavras, sobretudo por causa da sua idade. Fiz um ar de riso para minha esposa, e ela entendeu logo que eu lhe chamava para sairmos dali. E só não deixamos logo a praça porque busquei, por consideração, a ouvir o que o idoso ainda tinha mais a dizer:
           
- O padre Cícero deixou dito:  Depois da  minha morte é que Juazeiro irá crescer. Hoje aqui vocês estão vendo o crescimento e estão, como eu que vim de longe, a comemorarmos o Centenário de Emancipação Política deste Município. Pois bem, pois bem, já para os romeiros da Mãe de Deus, que vêm humildemente aqui dia e noite, neste ano de 2011 eles comemoram os cento e vinte e dois anos de uma outra emancipação, bem muito difícil de ser entendida e aceitada. Só que, para este simples e humilde cristão, católico, eu nunca tive uma gota de dúvida sobre o que ocorrera aqui,  assim como meus pais e muitos. Negar essa verdade é um grande pecado que vai até o céu. Como disse o padre Cícero, antes de morrer: Para tudo tem seu tempo.        
        
Creio que, como eu, minha esposa e Cartaxo não entendemos coisa alguma do que o octogenário nos terminara de falar. Com educação, eu e minha esposa despedimos do senhor Júlio. Mas, durante o percurso de volta para casa, até ainda hoje, lembro-me do Júlio Chagas Oliveira. Ele me incentivou a ler incansavelmente tanto a obra histórico-científica do della Cava quanto a do padre Antenor de Andrade Silva, intitulada de Cartas do Padre Cícero. E nunca me esqueci daquelas suas últimas palavras, ou melhor, da do padre Cícero: Para tudo tem seu tempo.  


                                     Dantas de Sousa     

sábado, 19 de julho de 2014

Literatura folclórica; DITADOS E PROVÉRBIOS (36)




LP CARIRI apresenta aos seus leitores (como também aos colecionadores e estudiosos) MAIS 100 ditados e provérbios. Conheça-os ou relembre-os. Aprecie-os e apreenda os seus ensinamentos. Eles servem até como prática pedagógica para os professores, em sala de aula.

Agora que sou rico não corro atrás de mulher, corro na frente.
A pomba é o passarinho da paz; a mulher é a paz do passarinho, e o velho tem o passarinho em paz.
Artigo nacional: o melhor é a mulher.
Café e mulher: só na cama.
Creio no freio do carro e no amor de mulher.
Da mulher de burguês ninguém queira ser freguês.
Deus, abençoe as mulheres bonitas; e as feias se tiver tempo.
Dinheiro e mulher boa só vejo nas mãos dos outros.
Estrada reta e mulher sem curva só dão sono.
Gostar de mulher é herança de meu pai.
Gosto tanto de mulher casada que vivo com a minha.
Homem casado com mulher feia detesta feriado.
Jumento e mulher feia só quem procura é o dono.
Lugar de mulher é na cozinha.
Mais vale uma mulher feia em casa do que duas bonitas no vizinho.
Marido de mulher feia já acorda assustado.
Melhor que uma mulher só duas.
Mexa com todas as mulheres, mas conserve a direita.
Mulher carinhosa tem muita, mas sincera é difícil.
Mulher casa com pão pensando no salame.
Mulher ciumenta é como calo seco: só servem pra aperrear.
Mulher ciumenta é como camelo: cheio de nós pelas costas.
Mulher ciumenta é como galinha choca: só se levanta fazendo barulho.
Mulher ciumenta é como juiz de futebol: só apita contra o marido.
Mulher ciumenta é como padre: só gosta de fazer sermão.
Mulher ciumenta e título vencido comigo é no protesto.
Mulher de amigo meu pra mim é homem.
Mulher de bondade, outrem fale e ela cale.
Mulher deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem vergonha.
Mulher e bateria não se emprestam: voltam descarregadas.
Mulher e caminhão são só ilusão.
Mulher e cão de raça procuram pela caça.
Mulher é como a Roda da Fortuna: sempre tem para dar.
Mulher é como estrada: se é boa é perigosa.
Mulher é como mosquito: só sossega na tapa.
Mulher é como sapato velho> o último que se gasta é a língua.
Mulher é fogo, o homem estopa; vem o diabo e sopra.
Mulher e foto se revelam no escuro.
Mulher e freio não merecem confiança.
Mulher é igual à esquina: dobro todas.
Mulher é igual à música: faz sucesso quando é nova.
Mulher é que nem buzina: é só tocar.
Mulher e vento forte só quebram galho.
Mulher feia e cheque sem fundo: protesto.
Mulher feia é como camarão: a gente arranca a cabeça e come o resto.
Mulher feia é como trovão: só presta pra fazer barulho.
Mulher feia e frete barato eu não carrego.
Mulher feia e fruta azeda: só com cachaça.
Mulher feia e jumento só quem procura é o dono.
Mulher feia e ladrão só levam do meu se for roubado.
Mulher feia e magra é como escova de dente: só tem osso e cabelo.
Mulher feia e marimbondo, quando não corro, me escondo.
Mulher feia e onça só na jaula.
Mulher feia e piolho eu mato na unha.
Mulher feia e ponte eu passo por cima.
Mulher feia e tripa de porco só servem para tira-gosto.
Mulher feia e urubu comigo são na pedrada.
Mulher feia, pra mim, é homem.
Mulher feia só carrega meu dinheiro se me roubar.
Mulher feia vale por duas: sempre o marido tem outra.
Mulher gostosa é a mulher dos outros.
Mulher linguaruda é como foguete: explode em qualquer lugar.
Mulher mulherão esquenta mais que motor de caminhão.
Mulher não é bicho em que se confie.
Mulher que dá muita bola leva chute.
Mulher que não se enfeita por si só se enjeita.
Mulher que pouco fala pouco apanha.
Mulher que se fia de homem jurar o que ganha é chorar.
Mulher sem ciúme é flor sem perfume.
Mulher só não casa com percevejo porque não conhece o sexo dele.
Namora mulher casada é comprar atestado de óbito.
Não cobiçar a mulher do próximo quando o próximo estiver próximo.
Nem creio em homem que perde nem em mulher que acha.
O homem é um camelo que a mulher utiliza para atravessar o deserto da vida.
O homem pensa, e a mulher dá o que pensar.
Onde a mulher reina e governa, raras vezes mora a paz.
Os homens fazem as leis, e as mulheres os costumes.
Parafuso e mulher só apertando.
Por cobiça de florim, não te cases com mulher ruim.            
Por trás de um grande homem, sempre há uma mulher.
Quando chover mulher, vou abrir uma goteira em cima da minha cama.
Quando um homem ajuda outro, tem mulher pelo meio.
Quem gosta de mulher feia é salão de beleza.
Quem manda em minha casa é a minha mulher, mas quem manda nela sou eu.
Quem se arrasta aos pés de mulher é véu de noiva.
Se casamento fosse negócio, mulher viveria em prateleira.
Se Deus inventou coisa melhor do que a mulher, guardou para Ele.
Se me virem abraçado com mulher feia, podem apartar que é briga.
Se mulher é ilusão, sou um homem iludido.
Se mulher fosse dinheiro, o papai aqui seria milionário.
Se mulher fosse dinheiro, todas as notas eram falsas.
Se mulher fosse ferro, eu queria ser a ferrugem.
Se mulher fosse pirão, eu morreria empanzinado.
Se o diabo entendesse de mulher, não teria rabo nem chifre.
Sossego de homem é mulher feia e cavalo capado.
Tentei enganar o diabo, ele nem percebeu; fui enganar a mulher, o enganado fui eu.
Uma desgraça nunca vem só.
Uma é ver, outra é contar.
Uma faca amola outra.
Uma mentira descobre outra.