quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

POEMAS: Nos delírios do amor (Nezinho do Michelim) e Acalanto (Nertan Macedo)



          Nos delírios do amor

Transitando no vale dos desejos,
eu irei sempre avante, muito além.
Sonhando acordado e sem ninguém,
afoguei-me no lago dos teus beijos.

Teu passado impudente, pura lama,
chuva grossa, amor baratinado.
Poço de desejo e de pecado,
praticado entre nós na minha cama.

Louco amor com volúpia e luxúrias,
sem moral, sem vergonha, sem injúrias,
muito alarido, gemidos e exclamor.

Esperneio, sofreguidão e beijos,
no auge da loucura e dos desejos,
explosão nos delírios do amor.

 
          Nezinho do Michelim



                  Acalanto

Adormecei, amiga, adormecei.
Urge adormecer, adormecei.
Colocai vossas mãos, assim de leve,
assim de manso, colocai vossas mãos
sobre as minhas.
Adormecei vosso corpo, adormecei.

Dai-me a quietude e o silêncio.
A tranquilidade e a placidez serena,
a luz do vosso rosto adormecido,
a vossa sombra, amiga, adormecei.

Há de vir a angústia, há de vir
o cansaço e o sono, velarei
vosso corpo inundado de sopros
criadores de mundos distantes.

Buscai no sono o esquecimento da vida,
cotidiana e triste, adormecei, amiga.
Guiai vosso sonho para o mundo das noites,
onde asas de anjos, branquinhas, levitam,
docemente, sobre a luz e a neve,
(Ai, onde deixei minha inocência antiga?)

Dormem vales e montanhas da terra.
Na haste, dorme a flor pendida e fresca,
banhada de perfume e de luar.
Dormem a luz no céu, a cidade e o mar,
a poesia no mundo, a música no ar.

Adormecei, amiga, adormecei.
Esta noite é de sono calmo e bom.
Um dia há de descer nos descampados
do mundo a noite erma e fria.
Ela trará no seu ventre a agonia das virgens
e a manhã nascerá sobre o último sono,
o derradeiro sono, imperturbável sono.

Adormecei, amiga, adormecei,
esta noite é de sono calmo e bom.

                        Nertan Macedo

PAINEL DA REDAÇÃO (10)

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LP CARIRI: motivador da palavra escrita (Dantas de Sousa) - ideia


               LP CARIRI: motivador da palavra escrita

Desde a sua primeira postagem, o blogue educativo e cultural LP CARIRI se propõe, como milhares de blogues e sítios lusófonos, à propagação da Língua Portuguesa no mundo, através da internet. Ele se dirige, portanto, de modo especial, para os milhares de leitores e estudiosos de lusofonia.

Uma vez que o LP CARIRI se objetiva a difundir mundialmente a Língua Portuguesa, ele, por sua vez, por ser originário do Cariri cearense (situado no sul do Ceará, um estado do nordeste-brasileiro) passa a divulgar também a Literatura (poetas e prosadores) dessa região.

Além disso, o LP CARIRI expõe aos leitores lusófonos a gramática normativa da língua portuguesa, de uma maneira que possa facilitar a aprendizagem do português. E mais, oferece aos docentes uma visão pedagógica para o ensino do português em sala de aula.

Como incentivador do Folclore, a ciência do saber cultural do povo anônimo, o LP CARIRI publica textos da Literatura folclórica, em suas diversas manifestações.

Enfim,  LP  CARIRI se propõe a quatro expedições culturais: a propagação da Língua Portuguesa no mundo; a identificação da Literatura do Cariri cearense-brasileiro; o aprendizado e o aperfeiçoamento do português formal e informal; e a divulgação da Literatura folclórica.

E este é nosso lema: Nada substitui o valor da LEITURA da PALAVRA ESCRITA para a formação do ser humano.


                                              Dantas de Sousa

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

POEMAS: Existência (Tânia Melo do Amaral) e Encantamento (Tereza Vieira)


              Existência

Sou um reles verme,
alimentando-me de vermes
mais reles do que eu.
Arrasto-me, por esgotos
de uma sociedade infernal
e possuo-te nos recantos
das privadas que exalam
odores de urina e fezes.
Sou um imundo verme
renascidos dos arrotos
fétidos das trevas.
Eis me aqui, agora presente
no crepúsculo da tua insana
e amarga saudade, corroendo
de paixão as fibras inflamadas
da tua mente.
Sou um verme...
que se fez carne.

            Tânia Melo do Amaral


            Encantamento

És a estrela que espero
na noite que se aproxima,
tirando-me da solidão,
afastando a saudade
das horas que nos separam.
Encontrando-te,
caio em teus braços,
sentindo o gosto do teu beijo.
Deitada em teu colo ardente,
embriago-me de sonhos e fantasias,
amando-te como a uma estrela
que é só luz
irradiando minha vida
outra vez.

                  Tereza Vieira

POEMAS: Eu te desafio e Você e eu (Raquel Alves)


               Eu te desafio

É tão difícil aprender a amar.
E, quando enfim conseguimos,
eis que a dor da partida
vem nos devorar.
Esses pensamentos, como verme,
em minha cabeça brotam sem cessar.

É tão fácil aprender a sofrer.
Quando perdemos nosso rumo,
eis que a morte chega calmamente.
Ela dorme em teu leito sem tu perceberes.
Esses pensamentos deprimentes,
em minha cabeça, brotam sem cessar.

Morte, eu te desafio.
Um ar gélido é tudo que recebo
quando digo teu nome?
Morte, eu te desafio.
Eu não compreendo direito
o teu joguinho sujo.

É tão difícil trapacear agora.
Tu estás em alerta a tudo.
Eis que tu demoras a enxergar uma luz.
Esses pensamentos me conduzem
a esperança que brota em mim,
sem cessar...

Morte, tu não és a mais forte.
A dor que levo em meu peito
é poderosa demais e vai te destruir.
Morte, tu não és a mais forte.
Sábio é aquele que, em sua lágrima,
alimenta a fé de um dia te destruir.

                    Raquel Alves


                      Você e eu

Você e eu. Quantos sonhos dividimos
nessa estranha forma de vida.
No brilho de seu olhar amigo,
eu encontrei o amor.

Você e eu desbravamos o mundo.
Esse nosso temperamento,
em muitas horas, estivemos em encrencas.
Mas, no fim, eu encontrei o amor.

Meu amigo, companheiro inseparável,
onde você está escondido? Preciso achá-lo.
Meu amigo, uma hora sei que vamos nos separar.
Mas saiba que, em meu coração, um cantinho aconchegante já é seu.

Corremos o mundo.
Em nossas risadas, eu vi o paraíso.
Você me defende e não pede nada em troca,
além de apenas dividir o tempo.

Em alguns minutos ao seu lado,
eu fui tão feliz...

                           Raquel Alves 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

BRINCAR COM PALAVRAS (Metonímia e Eufemismo)



METONÍMIA

é a substituição do sentido de uma palavra pelo de outra que com ele apresenta relação constante.


Na minha juventude, eu gostava de ler. Eu lia de tudo, sobretudo José Lins do Rego. Sentia-me bem ao ler sozinho, no quintal de casa, debaixo de uma sombra. Preferia os livros à bola.

Mas, de vez em quando, eu ia ao futebol com meu pai, no fiat dele. Antes de entrar no estádio, ele bebia umas antárticas com os amigos, e eu uma garrafa de cajuína. Ele era um apaixonado pelo Ceará. Sentia prazer imenso quando via as bandeiras tremulando após um gol e a arquibancada toda pulando alegre. Afinal, meu pai batalhava demais para nos dar o pão de cada dia. Lá em casa, além dele e mamãe, havia mais três bocas para ele sustentar.

Mas, após a morte do meu pai, passei a ser o braço direito da minha família. Suei muito, junto com minha mãe, para sustentar a casa. Alegramo-nos, portanto, ao ver Fábio e Lucinha com seus diplomas e, consequentemente, vivendo dos seus trabalhos.

Hoje, posso dizer que nunca me lamentei por ter carregado aquela cruz. E uma coisa eu ainda conservo no coração: os livros me ajudaram muito. Eles modificaram a minha cabeça. Não sei o que seria de mim sem a companhia das letras.           
  

EUFEMISMO

é a suavização ou abrandamento de expressões rudes, chocantes ou repugnantes. É a ironia delicada, sutil.



O gestor municipal do nosso município pensa que somos uns alienados. Mas o problema é que ele, até hoje, não falou a verdade para os funcionários da limpeza pública. Toda a população local já sabe que o doutor Leandro não só desviou a verba que viera para amenizar a situação indelicada daqueles funcionários como ainda lhes apresentou números não condizentes com o que foi publicado pela imprensa da cidade. Por causa disso, já se comenta na cidade que ele tem de ser responsabilizado por seu ato. Entretanto os vereadores que o apoiam tentam minimizar o fato e, em troca, são agraciados em suas reivindicações pelo prefeito.   

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

POEMAS: Almas más e Vazio passageiro (Cícero de Tarso Dantas)


                        Almas más

Somente o próprio indivíduo é capaz,
de por si, mudar suas atitudes.
Ninguém pode extirpar o amargurante
desrespeito que habita em sua alma,
ou fazê-lo abandonar a disfarçada maldade
dos seus interesses.

Prometem e juram, em nome de deuses,
uma nova representação em ser.
Mas, se não transformarem perceptivelmente
seu condicional agir,
suas promessas fingidas,
revelarão novas e vergonhosas mentiras.

Descrentes da lealdade e do amor,
por não carregá-los em si,
acreditam unicamente na concepção doentia
das suas verdades
e sorriem maquiavelicamente como criança
para nos enganar.

Mesmo que sejam demonstradas falhas
e faltas contra seus irmãos,
justificativa nenhuma os tornará conscientes
da imoralidade concernente aos seus atos.

Consequentemente, continuarão a explorar
cruelmente a boa fé dos outros
e amargurar e destruir a vida do próximo,
ou a subtrair o ganho de quem
honestamente trabalha.

Almas revoltadas,
seres ignorantes e descompensados,
sofrerão duras penas nessa vida,
até que compreendam o seu limite
em relação aos limites dos outros.

                  Cícero de Tarso Dantas



                Vazio passageiro

Serão cruas e frias as palavras
que se misturam a essa poesia.
A realidade, que se apresenta alucinada,
iguala-se a um tecido esgarçado,
onde foram bordadas
antigas lembranças desfeitas pelo tempo.
Porém escorre, por esse pano de fundo,
uma recorrência viciosa em todo significado vivo.

Tudo se mistura ao nada...
Pessoas autômatas
e frias em almas
marcham de olhares vazios,
como que orientadas pela via do calvário.
São cravos de ossos que crucificam
suas enganosas e diárias expectativas existenciais.
O caos, em cena de morte,
continuamente muda o sentido de quem passa.

Não se poeta o voo das borboletas,
nem sorrisos de infantes,
ou mãos e braços dados.
O espaço amorfo e cinza
tanto quanto o espírito da alegria
transparece frio.
A felicidade, quase esquecida,
soluça no concreto meio fio das calçadas.

São secos e frios os cordões de aço
que manipulam a gente dessa paisagem.
Uns vão e outros vêm
tangidos em direção contrária.
Traços de vida ritualizada pela busca objetiva
de desejos inatingíveis...

O sol descorado
parece não transacionar-se em sua órbita.
Em cenário morto, máquinas humanas atuantes
nem notam o orvalho sanguíneo
que borra um outdoor anunciante,
no qual um desconhecido e desgraçado palhaço
representa, em cena muda,
seu impróprio sacrifício pelo ganho da vida.

                        Cícero de Tarso Dantas