segunda-feira, 28 de julho de 2014

Literatura folclórica: OS TRÊS COROADOS - conto

   
 
                          Os três coroados

Foi um dia, havia três moças já órfãs de pai e mãe. Uma vez, elas estavam todas três na sacada de seu sobrado, quando viram passar o rei. A mais velha disse: “Se eu me casasse com aquele rei, fazia-lhe uma camisa como ele nunca viu.” A do meio disse: “Se eu me casasse com ele, fazia uma ceroula como ele nunca teve.” A caçula disse: “E eu, se me casasse com ele, paria três coroados.”

O rei ouviu perfeitamente a conversa. Quando foi no dia seguinte, foi ter à casa das moças e lhes disse: “Apareça a moça que disse que, se casasse comigo, paria três coroados.” A moça apareceu, e o rei levou-a, e casou-se com ela.

As irmãs ficaram com muita inveja, mas fingiram não ter. Quando a moça apareceu grávida, as irmãs meteram-se dentro do palácio, com aparência de ajudá-la em seus trabalhos. Aproximando-se o tempo de dar a rainha à luz, as suas irmãs se ofereceram para servi-la e dispensar a parteira.

Chegado o dia, elas se muniram de um sapo, uma cobra e um gato. Quando nasceram os três coroados, elas os esconderam dentro de uma bolsa e mandaram largar no mar. Apresentaram, então, ao rei os três bichos, dizendo: “Aí estão os coroados que aquela impostora pariu.”

O rei ficou muito desgostoso e mandou enterrar a mulher até os peitos, perto da escada do palácio, dando ordem a quem por ali passasse para cuspir-lhe no rosto. Assim se fez.

Mas um velho pescador encontrou no mar a bolsa, apanhou-a e abriu e encontrou os três meninos, ainda vivos e muito lindinhos. Ficou muito alegre e levou-os para casa para criar. A velha, sua mulher, se desvelou muito no trato das crianças. Quando os meninos cresceram, a ponto de poderem ir para a escola, foram e passavam sempre pelo palácio do rei. As cunhadas dele viram, por vezes, passar os meninos e os conheceram.

Um dia os chamaram e se puseram com muitos agrados com eles e lhes deram de presente três frutas envenenadas, a cada um a sua. Os meninos comeram as frutas e viraram todos três em pedra. Os velhos ficaram muito aflitos com aquilo, e toda a cidade falou no caso.

Mas a velha, que era adivinha, disse ao marido: “Não tem nada. Eu vou à casa do Sol buscar um remédio para as três pedras virarem outra vez em gente.” Partiu montada a cavalo.

Depois de andar muito tempo, encontrou um rio muito grande e bonito. O rio disse-lhe: “Ó minha avó, aonde vai?” A velha respondeu: “Vou à casa do Sol para ele me ensinar que remédio se deve dar a quem virou pedra para tornar a virar gente.” O rio lhe disse: “Pois então pergunte também a ele a razão por que, sendo eu um rio tão bonito, grande e fundo, nunca criei peixe.” A velha seguiu. Adiante encontrou um pé de fruta muito copado e bonito, mas sem uma fruta. Ao avistar a velha, a árvore disse: “Aonde vai, minha velhinha?” - “Vou à casa do Sol buscar uma mezinha para gente que virou pedra”. - “Pois pergunte a ele a razão por que, sendo eu tão grande, tão verde e tão copada, nunca dei uma só fruta”. A caminheira seguiu. Depois de andar muito, passou pela casa de três moças, todas três solteiras e já passando da idade de casar. As moças lhe disseram: “Aonde vai, minha avó?” A velha contou aonde ia. Elas lhe pediram para indagar do Sol o motivo por que, sendo elas tão formosas, ainda se não tinham casado. A velha saiu e continuou a caminhar. Ainda depois de muito tempo é que chegou à casa da mãe do Sol.

A dona da casa recebeu-a muito bem. Ouviu toda a sua história e encomendas que levava e escondeu-a em razão de seu filho não querer estranhos em sua casa, e quando vinha era muito zangado e queimando tudo. Quando o Sol chegou, vinha desesperado e estragando tudo o que se achava: “Fum... aqui me fede a sangue real!... aqui me fede a sangue real!...!” - “Não é nada não, meu filho, é uma galinha que eu matei para nós jantar.”

Assim a mãe do Sol o foi enganando, até que ele se aquietou e foi jantar. Na mesa de jantar, sua mãe lhe perguntou: “Meu filho, um rio muito fundo e largo por que é que não dá peixe?” - “É porque nunca matou gente.” Passou-se um pouco de tempo e a velha fez outra pergunta: “E uma árvore muito verde e copada, por que é que não dá fruta?” - “Porque tem dinheiro enterrado embaixo.” Pouco tempo depois outra pergunta: “E umas moças bonitas e ricas, por que não se casam?” - “Porque costumam mijar para o lado em que eu nasço.” Deixou passar mais um tempinho e perguntou: “E qual será o remédio para gente que tiver virado pedra?” Aí o Sol enfadou-se e disse: “O que querem dizer hoje essas perguntas?” A mãe respondeu: “Não é nada, meu filho. Eu é que, às vezes, porque vivo aqui sozinha, me ponho a imaginar essas tolices.” O Sol foi e respondeu: “O remédio é tirar da minha boca, quando eu estiver comendo, um bocado e botar em cima da pedra.” A velha, daí a pouco, fingiu um espanto, levou a mão à boca do Sol e tirou o bocado, dizendo: “Olha, meu filho, um cisquinho na comida.” E guardou o bocado. Daí a pedaço a mesma coisa. “Olha um cabelo, meu filho.” E escondeu mais um bocado. Numa terceira vez, ela fez o mesmo, e o Sol se levantou aborrecido, falando: “Ora, minha mãe, seu de comer hoje está muito porco. Não quero mais.” Deitou-se e, no dia seguinte, foi-se embora para o mundo. Sua mãe foi à velhinha, que estava escondida, e lhe contou tudo, dando os três bocados. A velha pôs-se a caminho para trás.

Passando por casa das moças, aí dormiu, sem querer dizer a razão por que elas não casavam. No dia seguinte, bem cedo, ela levantou-se, e as moças também. Elas correram logo para o lugar onde costumavam urinar, voltadas para o nascer do sol. A velha as repreendeu, dizendo: “É esta a razão de vocês não se casarem. Percam esse costume de mijar para a banda donde o sol nasce.” As moças assim fizeram e logo acharam casamento. A andadeira tomou o seu caminho e foi-se embora a toda a pressa.

Chegando à fruteira, pôs-se debaixo dela a cavar, sem dizer nada. Quando puxou um grande caixão, então disse por que a fruteira não dava frutas. O pé da árvore começou logo a carregar que parecia praga. A velha seguiu.

Ao chegar ao rio, ele lhe indagou do seu recado: “Logo lhe digo.” E a velha foi passando depressa. Quando se viu bem longe, gritou: “É porque você nunca matou gente.” O rio botou logo uma enchente tão grande, que por um triz, não matou a velha.

Afinal, foi ela ter em casa. Sem mais demora, aplicou os três bocados em cima das três pedras, e os meninos se desencantaram. A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos do rei. Ele mandou um dia convidar o velho com os três meninos para jantarem em seu palácio. O velho não quis ir, nem mandou os meninos. O rei o intimidou até que foram os meninos. Mas a velha ensinou aos meninos: “Quando vocês lá chegarem, meus filhinhos, que passarem pela escada, se ponham de joelhos e tomem a bênção àquela pobre mulher que lá está enterrada, parecendo um cadáver, porque é a mãe de vocês. No jantar, não queiram ir para a mesa sem que o rei mande desenterrá-la e botar também à mesa. Quando ele der a cada um o seu prato, não comam e deem todos os três a ela, que os há de devorar num instante, pois está morta de fome. Aí as duas moças que lá têm, que são tias de vocês, hão de dizer: ‘Que barriga de monstro que cabe três pratos de uma só vez!’ A isso vocês respondam, tirando os bonés e dizendo: ‘Não é de admirar que caiba três pratos de comida, quando coube três coroados’ e mostrem ao rei as cabeças.”


Assim foi: os meninos executaram fielmente as recomendações da velha. (Todas as coisas se repetiram pela forma indicada pela velha adivinha, com grande surpresa para o rei e despontamento para as duas infames malfeitoras). Tudo acabado, o rei ficou vivendo com sua mulher, que voltou à sua antiga beleza, e os seus filhinhos no palácio. Aí o rei perguntou aos filhos o que eles queriam que ele fizesse às duas danadas. Os meninos responderam que ele mandasse buscar quatro burros bravos e as amarrassem nos rabos. Assim fizeram, e elas morreram lascadas ao meio.

sábado, 26 de julho de 2014

UM FATO VERÍDICO (Dantas de Sousa) - crônica / redundâncias


                            Um fato verídico

Dizem que João Alberto abusa demais da bebida alcoólica. Há anos atrás que ele, logo que amanhece o dia, se dirige à sua adega de bebidas, que fica no primeiro andar de sua casa.

Sua esposa, que convive junto dele há vinte e cinco anos, explicou-me com minucioso detalhe o grave problema do marido. Segundo ela, todos os dias, João Alberto mantém o mesmo hábito: sobe para cima apressado e entra para dentro da adega. Repete outra vez o que sempre faz. E, para piorar mais, sai de dentro do recinto e desce para baixo já quando não pode mais engolir pela boca as doses.  

Na sua opinião pessoal, dona Margarida, a sua esposa, a bebida para João Alberto se tornou como um colírio para os olhos, ou como um batom na boca de uma mulher vaidosa. Ainda no seu modo de ver, vai ser difícil o marido recuar para trás com  o vício. Cada vez ele avança para frente com esse vício mau. E ele, diferente do tempo passado de antes, não acrescenta mais nada em sua vida e está caindo num abismo sem fundo.

Atualmente, João Alberto, que é o principal protagonista de uma história trágica, não consegue mais encarar de frente o seu problema.  Está vivendo um sofrimento triste. Chega a sofrer crises caóticas devido a embriaguezes e ressacas.

Por diversas vezes, ele adiou para depois deixar o álcool. Mas suas decisões voam pelos ares. Ele não tem mais condição, portanto, de fazer uma livre escolha.

É consenso geral de sua família que João Alberto compareça em pessoa no Alcóolicos Anônimos. Só que sua esposa diz que não pode introduzir o marido dentro do grupo, já que é uma decisão individual de cada um.

                                       Dantas de Sousa     

sexta-feira, 25 de julho de 2014

REGÊNCIA VERBAL (7)


A notícia foi como uma facada no coração. Para não cair, Barros logo se apoiou ao muro. Mas, se restabelecendo do susto, andou para dentro de casa, esforçando-se nos passos. E, na cozinha, não quis se sentar. Apoiou-se à mesa, depois se apoiou sobre a perna direita para ouvir ainda mais o amigo Teotônio, que chegara atrás dele. Segundo o amigo ainda lhe expôs, Ernesto se apoiava em documentos.

- Se ele está querendo me atingir com isso, levantou Barros de vez a voz, Ernesto errou de alvo. Ele atingiu o gerente, que era fraco. Em mim, ele não atira pedras. Ele que atire pedra em outra pessoa, mas em mim não.

- Mas, segundo Ernesto, completou Teotônio rodando os dedos polegares um no outro, as despesas da firma aumentaram um bocado. E ele está culpando você, depois que você bateu o carro de entrega no poste.

Naquele momento, enchendo-se de raiva, Barros bateu a porta da geladeira com violência. Ao sentar-se,  bateu na mesa com a garrafa d'água, chegando a derramar o líquido sobre a toalha. Não se conformando, bateu sobre a mesa a mão fechada com extrema raiva. E explodiu:

- Deixa, deixa aquele cachorro do Ernesto vir com besteira comigo, que ele vai ver. Eu bato nele e ainda bato em quem quiser defender aquele desgraçado. Agora se viu. Quando aquele safado vivia batendo pelas portas atrás de emprego, eu ajudei o peste a se empregar.

E Barros, mais enfurecido, pediu ao Teotônio que se retirasse de sua casa, alertando-o:

- E bata à porta devagar. Ouviu, seu trazedor de mau recado.  

Depois que Teotônio saiu, Barros pensou em chamá-lo de cafajeste e coisa e tal. Também pensou em chamar Ernesto de covarde. Ainda pensou em chamar pelos colegas da firma para serem testemunhas. Mas desistiu logo de lhes chamar porque eles não eram de confiança. E não chamou ninguém dos vivos. Barros, então, chamou por todos os santos, para eles o livrarem de ele querer fazer mal ao colega Ernesto e ao trazedor de mau recado.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

POEMAS (Edna Ribeiro e Raquel Alves)


            Desencontro

 Esperei a chuva
 O sol brilhou
 Esperei a lua
 O céu nublou
 Esperei você
 Você faltou
 E eu voltei
 Sem crença
 Tão só

         Edna Ribeiro


                Eu te desafio

É tão difícil aprender a amar.
E, quando enfim conseguimos,
eis que a dor da partida
vem nos devorar.
Esses pensamentos, como verme,
em minha cabeça brotam sem cessar.

É tão fácil aprender a sofrer.
Quando perdemos nosso rumo,
eis que a morte chega calmamente.
Ela dorme em seu leito sem você perceber.
Esses pensamentos deprimentes,
em minha cabeça, brotam sem cessar.

Morte, eu te desafio.
Um ar gélido é tudo que recebo
quando digo teu nome?
Morte, eu te desafio.
Eu não compreendo direito
o teu joguinho sujo.

É tão difícil trapacear agora.
Tu estás em alerta a tudo.
Eis que tu demoras a enxergar uma luz.
Esses pensamentos me conduzem
a esperança que brota em mim,
sem cessar...

Morte, tu não és a mais forte.
A dor que levo em meu peito
é poderosa demais e vai te destruir.
Morte, tu não és a mais forte.
Sábio é aquele que, em sua lágrima,
alimenta a fé de um dia te destruir.

                    Raquel Alves

POEMAS (Eneilton Moreira Duarte e José Esmeraldo da Silva)


             A rosa imponente

Uma rosa risonha, redolente,
no jardim, tão faceira, se orgulhava.
Pois qualquer beija-flor, ali presente,
para a rosa imponente se curvava.

No jardim onde moro, há tantas flores:
margarida, anis, cravo, jasmim...
Mas aqui, quando pousam beija-flores,
os olhares se curvam para mim.

Mas um cravo, fitando a glamourosa,
redarguiu-lhe, de forma sinuosa:
Tu, de fato, possuis bela feição.

Mas, se eles te fitam encurvados,
não estão a teus dotes condenados:
é que foste plantada rente ao chão.
 


            Eneilton Moreira Duarte.


                  O pedido

Oh, meu bom Jesus Cristo, neste mundo
venho curtindo imenso sofrimento.
Tenho crise de dor que me confundo,
suporto este sofrer todo momento.

E só Jesus, com seu poder profundo,
pode extinguir-me, pois, este tormento.
Com simples gesto, dentro de um segundo,
converte em gozo o meu viver cruento.

Confio, ó meu bom Deus, de ser ouvido.
Sem mesmo eu ter nenhum merecimento,
sei que o Senhor defere o meu pedido.

Extermine, de mim, o sofrimento,
ó meu bondoso redentor querido,
pois é muito cruel o meu tormento.

               José Esmeraldo da Silva


terça-feira, 22 de julho de 2014

FERIADO NO MÊS DE JULHO?... (Dantas de Sousa) - crônica para o Dia do Município de JN

                        
                        
                    Feriado no mês de julho?...
                              
Sabemos nós que a busca do conhecimento é importantíssima para nossas vidas. Tão necessária e indispensável como a água potável para o ser humano é. E corremos para saber o que se passa tanto perto como longe de nós. Vemos ou assistimos, lemos ou ouvimos, e o bom é ficarmos cada vez mais informados. E a informação vem até nós como o vento:

- Mas é bom a gente, dotô, por dentro de tudo um pouco e por dentro um pouco de tudo.

E foi dessa maneira que terminou nosso papo. Mas para o leitor, que lê este meu texto, preciso de lhe informar o porquê do autor dessa filosofia se expressar assim. Pois lá vai, meu querido leitor, caso seja paciente com a palavra escrita.

Andávamos eu e Mirela, minha cachorrinha, nesta manhã de 22 de Julho - Dia do aniversário do Município de Juazeiro do Norte (103 anos). Lá para as tantas, Mirela parou para descansar. O destino me colocou diante de um senhor, sem ser idoso, saudável e que se achava sentado debaixo de uma arvorezinha, ajeitando as unhas com um cortador de unhas. Depois de ele ter feito o seu agrado a Mirela, falei-lhe que o dia era feriado em Juazeiro do Norte.

- Feriado? Eu num tou sabendo disso não. - rebateu de pronto o senhor, sem parar de mexer na unha.  - Nós tamo é no mês de julho, dotô, e eu nunca, mais nunca mesmo até hoje, vi dizer que tinha aqui, no Juazeiro, esse feriado, que o senhor mim dizendo agora.

- Hoje é o Dia do Município. O Juazeiro está completando hoje 103 anos. É por isso que hoje é feriado.

- Lá vai, lá vai. Eu nasci aqui, eu já moro vinte ano nessa casinha aqui de porta e janela, no tempo deu menino até rapaz solteiro eu estudei muito nas escola puraqui, eu já trabalhei muito puraqui e viajando por longe daqui... Pois bem, eu nunca vi falar desse feriado, que o doutor me falando agora, no mês de julho, não. Avalie, dotô, se eu fosse um de seguir os feriado que dizem que têm puraí, os meus num tinha o que comer não, dotô. O senhor já viu os animais bruto ter feriado?

Gostei muito de ouvir aquele senhor falador. Ele ainda me contou, entre outros assuntos (já que só ele quem falara), que seu pai e sua mãe nunca cumpriram esses negócios de feriado. Os dois nunca deixaram de estar no batente de segunda a segunda. Até na sexta-feira da morte do Senhor eles trabalhavam de suor pingar. E morreram os dois velho encriquilhado em cima do trabalho, sem largar ele um só instante. E terminou de me falar se usando daquela frase do início desta crônica: “Mas é bom a gente, dotô, tá por dentro de tudo um pouco e por dentro um pouco de tudo”.

E já quando eu e Mirela íamos adiante, o senhor gritou lá da árvore:

- O saber, dotô, é como beber água. Mas até água demais a gente se empazina também.

                                 Dantas de Sousa