quinta-feira, 23 de abril de 2015

REGÊNCIA VERBAL (13)



- Marcelo, uma coisa eu reconheço: não é fácil adaptar alguém a algo. Ou adaptar alguma coisa a alguém.

- Como é que é, Isaías? Explique-se melhor.


- Por exemplo, Marcelo: você adapta seu modo de ser aos ambientes aonde você vai?


- Sim, Isaías. Adaptei-me, por exemplo, aos colegas da minha nova escola.


- Uma outra pergunta, Marcelo? Seu cachorro se adaptou à nova casa?


- Sim, naturalmente, Isaías. Como eu me adaptei a ela também.


- Quer dizer, Marcelo, que tanto você como seu cachorro logo souberam se adaptar na nova residência?



- Todos nós, Isaías, temos de adaptarmos o corpo à cama, ou adaptarmos o corpo ao caixão. Ou nos adaptaremos a algo, ou nunca saberemos viver.

A arte na literatura de cordel (Dantas de Sousa) - ideia




Costuma-se definir Literatura de Cordel às obras literárias

em poema (estrofe, verso, métrica e rima)
impressas
folheteiras de tamanho em média de 11 por 5,6cm
com xilogravura ou clichê nas capas
de baixo preço
havendo nelas um caráter de produto artesanal.


No decorrer do tempo, estudiosos ou não, apresentam-na com várias denominações, tais como:

folheteria
folheteria de cordel
folhetos de poesia popular
poesia popular impressa
literatura popular em verso do Nordeste brasileiro
folhetos nordestinos


Entretanto, essa literatura, dita de cordel ou popular, ou ainda conhecida como objeto literário de grupos sociais mais pobres, adquire gradativamente um desenvolvimento artístico que se pode igualá-la a obras literárias poéticas de grande cunho e valor artístico. E esse aperfeiçoamento poético não é de hoje. Seus cultores sabem que as técnicas poéticas e estilísticas, por exemplo, exigem deles domínio firme e virtuosismo.


Diante disso, ao se estudar com seriedade a Literatura de Cordel, não se pode caracterizá-la de “popular”, como muitos apressadamente querem que ela seja. O que dizer, portanto, de estrofes como estas:


A intriga é mãe da raiva
O mau pensamento é pai
Da casa da malquerença
O desmantelo não sai
Enquanto a intriga rende
A revolução não cai.
PACHECO, José. Intriga do cachorro e o gato.



Não há quem viva no mundo
que não deseje gozar
desde o velho à criancinha
quer a vida desfrutar
e tudo aspira o amor
porque viver diz - amar.
BARROS, Leandro Gomes. Casamento e divórcio da Lagartixa



Com fé em Deus verdadeiro
A pessoa que viver
É feliz em todo canto
Também tem muito prazer
Alcança toda vitória
Não tirando da memória
O Deus de tanto poder.
SILVA, Caetano Cosme da. A praga de gafanhoto no sertão paraibano.



A mulher deixa o marido
os filhos deixam os pais
e vão viver livremente
por conta de satanás
é esta a razão por que
o mundo não presta mais.
CRISTO REI, João de. O mundo em lamentação.



Na dança se goza a vida
Na dança não há tristeza
Na dança não há pobreza
Na dança a moça é querida
Na dança a velha é esquecida
Na dança se diz é loa
Na dança a dama é patroa
Na dança tudo é casado
Na dança tudo é gozado
Na dança tem cousa boa.
LIMA, João Ferreira de. Dois glosadores Azulão e Borboleta.



São versos como esses que fazem com que atribua ao cordelista um valor artístico e intelectual. No entanto, necessita-se do trabalho de releituras do texto. 

                                                       Dantas de Sousa

Literatura folclórica: COMPARAÇÕES (14)


Mais ansioso que anão em comício.
Mais apertado que alpargata de gordo.
Mais apertado que bombacha de fresco.
Mais apertado que chapéu novo.
Mais apressado que cavalo de carteiro.
Mais apressado que cuspida de músico.
Mais asqueroso que colherada de ranho.
Mais asqueroso que vomitar correndo.
Mais assustado que cachorro em canoa.
Mais atirado que alpargata em cancha de bocha.
Mais babado que boi com aftosa.
Mais branco que perna de freira.
Mais caro que alimentar elefante com bombom.
Mais caro que argentina nova na zona.
Mais chato que dançar com a irmã.
Mais chato que gilete caída em chão de banheiro.
Mais chato que pernilongo gordo.
Mais complicado que calça de polvo.
Mais comprido que cuspe de bêbado.
Mais comprido que esperança de pobre.
Mais comprido que suspiro em velório.
Mais comprido que trova de gago.
Mais conhecido que a reza do padre-nosso.
Mais conhecido que andar pra frente.
Mais constrangido que padre em puteiro.
Mais contente que centopeia de sapato novo.
Mais contente que cão com dois rabos.
Mais corado que bunda de mandril.
Mais curto que coice de porco.
Mais curto que estribo de anão.

A homogeneidade das redações escolares



Qualquer professor de Língua Portuguesa, no hábito da leitura constante de inúmeros textos narrativos ou dissertativos de alunos, reconhece que as Redações escolares se caracterizam por uma homogeneidade estrutural e linguística, independente do tema da redação. Já quanto ao aspecto técnico - ortografia, acentuação gráfica, concordância, regência, crase - chega até a causar boa impressão para quem as lê. E essa homogeneidade textual, por sua vez, ofusca a criatividade, a imaginação, o senso crítico. Vejamos os dois textos a seguir:



Texto narrativo


Certa vez, num belo dia das minhas férias, quando eu estava indo com a minha mãe pra fazer as compras, no centro, me deparei com um acontecimento que me deixou muito chateado. Tudo aconteceu foi quando eu vi um velho, dos seus setenta anos mais ou menos, que estava pedindo uma esmola com uma pobre criança chorando. Aquela coisa me doeu bastante por dentro e fiquei muito emocionado. De repente, eu pedi que minha mãe desse uma esmola pra ele porque eu não queria ver aquela criança daquele jeito.
       
Então minha mãe decidiu dar uma esmola bem na mão daquele velho mendigo que estava com a criança. Só que, quando cheguei mais pra perto dele, dei de cara com um velho ruim, que estava inventando que era um mendigo. Foi nesse momento que senti tanta raiva dele que até me deu muita vontade de chamar a polícia pra prendê-lo. Só não resolvi chamar um policial que estava lá na esquina porque minha mãe me pediu que eu não fizesse aquilo, porque aquela pobre criança era quem iria sofrer muito mais do que já estava sofrendo.

Depois de uma semana de nós termos encontrado o velho com o coitadinho, eu encontrei mais uma vez ele pedindo esmola lá por perto de lá de casa. Foi quando cheguei junto dele e falei com muita raiva por dentro pra que ele não enganasse mais os outros, pois quem andava enganando os outros qualquer dia ia receber o castigo de Deus. E sabe que foi que ele me respondeu? Que era eu que devia me importar com a minha vida.

E esse fato nunca mais vou me esquecer de jeito nenhum. Tudo por causa de um velho miserável e, acima de tudo, desaforado é que muitos perdem a cabeça e fazem uma besteira nele. Como aquele têm muitos por aí. E é por causa desse tipo de gente que a gente não pode querer fazer mais nenhuma caridade com mais ninguém.



Texto dissertativo


No mundo em que vivemos atualmente, todo mundo convive constantemente com a violência. Vivemos à mercê de uma violência bastante cruel. Precisamos, portanto, de um policiamento melhor pra nossas famílias. Por isso é preciso que a polícia estude mais pra poder conviver melhor com toda a população.

Hoje em dia, as leis que os políticos fazem só contribuem para aumentar a violência desenfreada, pois elas dão asas para os bandidos desumanos praticarem crimes a torto e a direito e ficarem simplesmente impunes. A mídia, que tem um papel muito importante, deve contribuir denunciando as diversas e várias formas de violência contra crianças, mulheres, jovens, estudantes e etc.
       
Temos que lutar até o fim por nossos direitos, não deixando ficar impune qualquer pessoa que se usa de violência para com os outros. Mas nós temos que lutar com uma arma digna, e não com uma arma que chegue a gerar mais e mais violência. Não podemos ficar de braços cruzados, mas sim denunciando sempre e fazendo justiça, para que esse nosso mundo louco não se acabe por causa de tanta violência.
       
A violência é uma coisa que alguns têm o prazer de fazer. Muitos chegam até a estuprar os outros, matando só pra fazer o mal. Por isso é que essas pessoas devem ser trancadas nos presídios, já que não podemos matá-las com pena de morte, que é uma coisa errada.
       
É preciso que nós, que queremos o melhor pro nosso país, tenhamos mais justiça, porque só assim vai se acabar com essa violência no meio do povo sem ter como se defender. A justiça tem que ser mais rigorosa com aqueles que andam praticando por todo canto toda forma de violência.



Reflexão sobre os textos


Observa-se que o problema básico das duas redações escolares acima não é o aspecto técnico. No plano da gramática normativa, os autores apresentam bom domínio. Entretanto, tomando cada texto em sua globalização, depreendem-se deles ocorrências problemáticas, muito comuns nas redações escolares. Eis algumas:


Abuso de artigo indefinido
Abuso do QUE (ou queísmo)
Adjetivos vagos, imprecisos
Advertências morais
Associação de ideias incompletas
Emprego de noções de totalidade indeterminada
Emprego lexical incorreto
Falta de coerência e de coesão textual
Falta de complementos (nominal e verbal)
Inclusão desnecessária no texto
Palavras e/ou expressões desnecessárias
Palavras e/ou expressões hiperbólicas
Repetição de palavras
Repetição sonora desagradável
Uso de lugar-comum, ou frases e expressões já batidas pelo uso

quarta-feira, 22 de abril de 2015

REGÊNCIA VERBAL (12)



Seu Joaquim dos Santos tinha a mania de aconselhar os amigos. De quando em quando, aconselhava alguém a fazer algo. Veja alguns de seus aconselhamentos:

Aconselhei meu filho a não sair de casa porque vi que ia chover”. (Aconselhou-o, só que não choveu).

Aconselhei minha filha a estudar para depois ela arranjar um marido”. (Aconselhou-a, só que ela fugiu com o primeiro namorado).

Aconselhei ao meu amigo Honório não comprar o caminhão”. (Aconselhou-lhe, só que Honório comprou o caminhão e se deu bem).

Aconselhei à empregada do doutor Francisco um casamento digno de uma moça direita”. (Aconselhou-lhe, só que ela fugiu com o jardineiro do doutor).

Aconselhei Severino Braz sobre os males da cachaça”. (Aconselhou-o, só que Severino morreu de cirrose).

De tanto 
aconselhar o povo, terminou se aconselhando com o padre Francisco. Ele disse ao padre:


- Eu tenho certeza, meu padre, de que aqueles que se diziam meus amigos
se aconselharam para me trair.

REGÊNCIA VERBAL (11)


- Fiz o possível, meu amigo Teotônio, para contentar meus dois filhos neste final de ano. Mas não consegui contentá-los com a viagem de férias que eu programei com a minha mulher. Ao voltarmos da viagem, minha filha me disse que não se contentava em ter viajado para uma praia deserta. Já o meu filho mais velho também não se contentou de ter passado duas semanas enterrado num hotel. Eita que povo mais difícil são esses jovens de hoje. No meu tempo de juventude, eu me contentava com poucas coisas.


- A verdade é que, doutor Edson, os jovens de hoje preferem a agitação à tranquilidade. Preferem o barulho das metrópoles ao silêncio dos pequenos lugares. Atualmente, é muito difícil para os pais conseguirem interessar os jovens em antigos passeios tradicionais, como aqueles piqueniques, todos juntos da família, ou como nas viagens de férias para a casa do sítio. Eles não mais se interessam nessas proveitosas ocasiões familiares.

REGÊNCIA NOMINAL (2)




Como é bom ser um cidadão apaixonado dos animais domésticos e apaixonado por pessoas. Como é bom ter amizade com  pessoas alegres. Também não se esqueça de ser afável para com os mais velhos agradável aos moços e às moças, compreensível com os subordinados, leal e fiel aos colegas e às colegas de trabalho, generoso com todos e, sobretudo, amante da paz. Assim sendo capaz de praticar essas boas ações e sendo hábil nos relacionamentos, você será benéfico ao próximo e à sociedade, digno de respeito, rico de sabedoria, seguro de si mesmo, diferente de muitos e semelhante aos bons e às criaturas bondosas. Assim todos ficarão gratos a você.




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Não seja ansioso por riqueza, ávido de glória, desejoso de fama, difícil de convivência, escasso de solidariedade, estranho ao sofrimento, à dor dos outros, alheio ao viver sofrido e à angústia dos mais pobres, insensível ao sofrimento e à dor alheia. Também não procure ser possuído de desejos maus, propício ao vício do álcool e à luxúria, prejudicial ao próximo e à família, vazio de amor. Se estiver prestes aos hábitos maus e às práticas imorais, você será nocivo ao grupo social e à sociedade. Você será incompatível com o viver fraterno, idêntico a pessoas sem Deus.